{"id":114,"date":"2015-05-06T17:59:10","date_gmt":"2015-05-06T20:59:10","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalbandeirapreta.noblogs.org\/?p=114"},"modified":"2015-05-06T17:59:10","modified_gmt":"2015-05-06T20:59:10","slug":"violencia-de-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalbandeirapreta.noblogs.org\/?p=114","title":{"rendered":"VIOL\u00caNCIA DE ESTADO"},"content":{"rendered":"<p class=\"western\" align=\"right\"><i>TEXTO APRESENTADO PELA PROFESSORA CAMILA JOURDAN<\/i><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"right\"><i><a href=\"https:\/\/jornalbandeirapreta.noblogs.org\/files\/2015\/05\/professores_curitiba_bomba_politica.jpg\">284\\2015<\/a><\/i><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"right\"><i><a href=\"https:\/\/jornalbandeirapreta.noblogs.org\/files\/2015\/05\/professores_curitiba_bomba_politica.jpg\">IFCS<\/a><\/i><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"right\"><i><a href=\"https:\/\/jornalbandeirapreta.noblogs.org\/files\/2015\/05\/professores_curitiba_bomba_politica.jpg\">NO SEMIN\u00c1RIO NEOLIBERALISMO E VIOL\u00caNCIA DE ESTADO: Experi\u00eancias e lutas M\u00e9xico-Brasil<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-115\" src=\"https:\/\/jornalbandeirapreta.noblogs.org\/files\/2015\/05\/professores_curitiba_bomba_politica.jpg\" alt=\"professores_curitiba_bomba_politica\" width=\"645\" height=\"388\" srcset=\"https:\/\/jornalbandeirapreta.noblogs.org\/files\/2015\/05\/professores_curitiba_bomba_politica.jpg 645w, https:\/\/jornalbandeirapreta.noblogs.org\/files\/2015\/05\/professores_curitiba_bomba_politica-300x180.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 645px) 100vw, 645px\" \/><\/a><\/i><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"right\"><i>Na luta do bem contra o mal, \u00e9 sempre o povo que morre<\/i><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"right\"><b>Eduardo Galeano<\/b><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium\">Entender a viol\u00eancia de Estado significa entender que n\u00f3s vivemos em uma guerra. Trata-se de uma guerra continuada e antiga, que n\u00e3o come\u00e7ou ontem, que n\u00e3o acabar\u00e1 amanh\u00e3. Esta guerra aumenta ou diminui sua intensidade dependendo do per\u00edodo e da regi\u00e3o, mas ela n\u00e3o cessa, e ela mata milh\u00f5es todos os dias. Alguns talvez pensem que \u00e9 uma guerra de baixa intensidade, mas qual seria o crit\u00e9rio para se avaliar isso considerando que nosso modo de vida mata muito mais do que as grandes guerras?<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium\">Estamos falando aqui de uma guerra da vida contra a propriedade privada, e a propriedade privada est\u00e1 acabando com a vida. E \u00e9 preciso defender a vida, mas para defender a vida \u00e9 preciso tamb\u00e9m saber sobre os muitos modos de se matar. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel sequer compreender a no\u00e7\u00e3o de capitalismo sem compreender o que est\u00e1 envolvido na guerra que agora vivemos, uma guerra contra a pr\u00f3pria humanidade. <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium\">Nesta guerra, que os Zapatistas chamam IV Guerra mundial, o capitalismo ataca seletivamente, escolhendo quem deve viver e quem deve morrer, \u00e9 uma guerra de conquista de todos os territ\u00f3rios pelo mercado. E o Estado cumpre um papel fundamental nesta guerra, defendendo o capital contra o povo. <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium\">Melhor do que falar em viol\u00eancia de Estado \u00e9 entender em que medida o Estado \u00e9 um ato de viol\u00eancia, necessariamente. Um tipo particularmente prim\u00e1rio de viol\u00eancia a partir da qual alguns se arrogam o direito abstrato de governar outros. O Estado n\u00e3o se mant\u00e9m pelo contrato, ele s\u00f3 se imp\u00f5e pela for\u00e7a e pela amea\u00e7a. <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium\">Entendendo o Estado como modo continuado de manuten\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia do capital, vemos em que medida qualquer a\u00e7\u00e3o por parte daqueles que sofrem seus efeitos n\u00e3o possa ser chamada de violenta, sen\u00e3o que \u00e9 sempre uma a\u00e7\u00e3o de auto-defesa e resist\u00eancia. <\/span><span style=\"font-size: medium\">Como algu\u00e9m chega mesmo a convencer algu\u00e9m que quebrar vidra\u00e7as \u00e9 uma forma de viol\u00eancia?<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium\">Uma das maiores armas do capitalismo \u00e9 esconder a guerra, fazer parecer que n\u00e3o estamos em guerra \u00e9 sua principal estrat\u00e9gia, faz com que baixemos nossas defesas para que ele possa continuar com o monop\u00f3lio da sua ofensiva, faz parecer que aqueles que resistem para n\u00e3o morrer \u00e9 que est\u00e3o atacando e, com isso, garante que o capital possa seguir matando. Quanto mais nossa \u201cpol\u00edtica\u201d puder esconder a guerra, mais ela continua mantendo o exerc\u00edcio continuado da viol\u00eancia nas m\u00e3os de quem est\u00e1 vencendo. O capitalismo tenta transformar-se em ordem natural das coisa para n\u00e3o ser atac\u00e1vel. Ao mesmo tempo, e justamente como modo de esconder-se, torna tamb\u00e9m naturalizada a guerra que espalha pelo mundo como \u00fanico modo de vida poss\u00edvel. Enquanto n\u00e3o atentarmos para o fato de que a viol\u00eancia \u00e9 modus operantis do Estado, n\u00e3o veremos tamb\u00e9m que a \u00fanica maneira de acabar com a viol\u00eancia continuada \u00e9 a extin\u00e7\u00e3o do Estado e da desigualdade sist\u00eamica mantida por ele.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium\">Talvez Foucault tenha sido o primeiro (ou apenas o mais claro) a analisar o esquema contratualista de poder moderno, surgido com as revolu\u00e7\u00f5es burguesas a partir do s\u00e9culo XVIII e se arrogando oposto ao exerc\u00edcio de poder pela guerra, como sendo ele mesmo uma t\u00e1tica de guerra, que separaria usos leg\u00edtimos de usos ileg\u00edtimos da viol\u00eancia apenas como modo estrat\u00e9gico de combate, para manter o exerc\u00edcio continuado da viol\u00eancia nas m\u00e3os de quem est\u00e1 vencendo. Neste sentido, Foucault desmacara e inverte a famosa ideia de <\/span>Clausewitz<span style=\"font-size: medium\"> pela qual \u201ca guerra seria pol\u00edtica continuada por outros meios\u201d &#8211; uma pol\u00edtica degenerada &#8211; e a inverte, mostrando que \u201ca pol\u00edtica \u00e9 que seria a guerra continuada por outros meios\u201d, uma parte do jogo de for\u00e7as em uma guerra cont\u00ednua de fundo. E \u00e9 claro que aqui poder\u00edamos acrescentar tamb\u00e9m as estrat\u00e9gias jur\u00eddicas de domina\u00e7\u00e3o e ataque, o poder judici\u00e1rio tamb\u00e9m \u00e9 uma guerra continuada na nossa sociedade, uma arma nas m\u00e3os do capital, n\u00e3o h\u00e1 nenhum legalismo que n\u00e3o possa ser burlado pelo jogo de for\u00e7as de quem domina o pr\u00f3prio jogo e suas regras.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium\">Do mesmo modo, n\u00e3o existe nenhum crit\u00e9rio coerente estabelecido para o uso da viol\u00eancia considerado leg\u00edtimo e ileg\u00edtimo sen\u00e3o o princ\u00edpio b\u00e1sico de qualquer guerra: &#8216;para nossos aliados, tudo; para nossos inimigos, nada\u201d. Se n\u00e3o fosse assim, como explicar afirma\u00e7\u00f5es como &#8216;bandido bom \u00e9 bandido morto&#8217;, por exemplo? Toda a sociedade capitalista moderna se funda em cima da hipocrisia da n\u00e3o-viol\u00eancia parcial, mesmo tendo sido instaurada e seguido sendo mantida por meio de guerras extremamente violentas. Mesmo tendo sido o \u00fanico regime que jogou duas bombas at\u00f4micas que destruiram cidades inteiras. Mesmo apenas continuando existindo pelo exterm\u00ednio di\u00e1rio do povo e a seletiva, por\u00e9m cont\u00ednua, interven\u00e7\u00e3o militar contra popula\u00e7\u00f5es inteiras.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium\">Ent\u00e3o h\u00e1 toda uma ideologia do pacifismo dilu\u00edda em meio \u00e0 viol\u00eancia gritante, direta e indireta, presente em cada esquina, no morador de rua passando fome; nas crian\u00e7as pedindo dinheiro no sinal e dormindo na esquina; na total invisibilidade do trabalho precarizado; nos tiroteios e execu\u00e7\u00f5es di\u00e1rios nas favelas e periferias; nas torturas nos pres\u00eddios; na falta de moradia; de atendimento m\u00e9dico; na cegueira e insensibilidade diante do sofrimento do outro, que, em m\u00e1ximo grau, \u00e9 uma cegueira para n\u00f3s mesmos, desde que n\u00e3o estamos separados do outro, pois ele tamb\u00e9m nos constitui; na viol\u00eancia de g\u00eanero; no exterm\u00ednio racial; nos discursos de \u00f3dio nas televis\u00f5es e jornais, que jogam uns contra os outros, que legitimam a morte, que tornam banal a tortura, que cospem meritocracia excludente convencendo alguns que eles s\u00e3o melhores que outros e que podem, portanto, exclu\u00ed-los, explor\u00e1-los, permitirem seus assassinatos, fornecendo assim o pano de fundo de toda escravid\u00e3o vigente.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium\">Mas como aqueles que det\u00e9m o direito \u00e0 viol\u00eancia t\u00eam certeza do seu direito exclusivo a exerc\u00ea-la sozinhos, e como foram bem convencidos de que s\u00e3o superiores e que esta superioridade emana em m\u00e1ximo grau da natureza ou de Deus, usam todas as suas armas para escamotear sua pr\u00f3pria viol\u00eancia e fazer parecer que o uso da viol\u00eancia \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o em meio \u00e0 paz reinante. Quando, de fato, o que temos hoje, n\u00e3o s\u00f3 aqui, n\u00e3o s\u00f3 no M\u00e9xico, \u00e9 sangue sendo derramado para a manuten\u00e7\u00e3o da riqueza e poder de alguns, a viol\u00eancia \u00e9 a regra, pois n\u00e3o temos uma sociedade, no sentido de uma livre associa\u00e7\u00e3o tendo em vista um fim comum. N\u00e3o temos um fim comum, o fim de alguns \u00e9 a morte de outros, e, portanto, apenas a viol\u00eancia, direta e indireta, pode manter tantos escravos de poucos, ou melhor, pode manter a todos como escravos do dinheiro.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium\">A nossa persegui\u00e7\u00e3o e criminaliza\u00e7\u00e3o, nesta recente onda de criminaliza\u00e7\u00e3o do anarquismo e dos movimentos independentes da via eleitoral representativa \u00e9 apenas um pequeno cap\u00edtulo nesta guerra, um cap\u00edtulo pequeno, mas bastante simb\u00f3lico, pois n\u00e3o se trata de matar ou prender apenas n\u00f3s mesmos, trata-se de uma puni\u00e7\u00e3o exemplar contra toda auto-organiza\u00e7\u00e3o da sociedade. Porque n\u00f3s n\u00e3o somos triviais, n\u00e3o somos mais do mesmo, control\u00e1vel e institucional, nossa for\u00e7a \u00e9 nosso profundo car\u00e1ter anti-sist\u00eamico. <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-size: medium\">Por que o Estado ainda n\u00e3o cessou de atacar-nos? Podemos pensar que a guerra est\u00e1 ganha. As ruas est\u00e3o vazias, nossos companheiros est\u00e3o na cadeia ou criminalizados, na clandestinidade, o fascismo parece crescer em a\u00e7\u00f5es e discursos, eles podem vender nossas imagens felizes em novelas que nos ridicularizam, o povo est\u00e1 com medo de ir para as ruas, o projeto da terceiriza\u00e7\u00e3o segue sendo aprovado sem maiores protestos, mesmo incidindo diretamente na vida concreta das pessoas, mesmo que as universidades sirvam de exemplos claros da precariza\u00e7\u00e3o presente na perda de direitos, a diminui\u00e7\u00e3o da maioridade penal tem apoio popular, apesar de incidir diretamente contra os filhos do povo, a globo pode finalmente orquestrar e dizer o que as ruas devem defender, e as crian\u00e7as seguem morrendo nas favelas e os amarildos seguem desaparecendo, e a propriedade privada segue sendo propagada como sagrada, e as passagens aumentaram. Mas, espera&#8230; Se a guerra estivesse ganha, se o esquema contratualista estivesse certo, cessaria a guerra e a viol\u00eancia contra n\u00f3s. Teria acabado o momento do uso da for\u00e7a e a guerra, entendida como exce\u00e7\u00e3o pol\u00edtica degenerada, deveria parar. Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 assim porque o discurso contratualista \u00e9 ele mesmo uma t\u00e1tica de guerra, para manter a domina\u00e7\u00e3o como perp\u00e9tua. O que precisamos entender \u00e9 que toda esta domina\u00e7\u00e3o que listamos n\u00e3o \u00e9 assim mantida por uma ordem natural das coisas imut\u00e1vel, isso s\u00f3 pode ser assim mantido com muita viol\u00eancia e esta hist\u00f3ria, a hist\u00f3ria da viol\u00eancia, tem que ser contada, pois \u00e9 a nossa hist\u00f3ria, e temos que tomar suas r\u00e9deas, n\u00e3o podemos deixar que \u201cos vencedores\u201d a contem. Como nos ensina Galeano: \u201cAt\u00e9 que os le\u00f5es tenham seus pr\u00f3prios historiadores, as hist\u00f3rias de ca\u00e7adas continuar\u00e3o glorificando o ca\u00e7ador.\u201d O povo n\u00e3o reage desta forma porque \u00e9 pac\u00edfico e ama futebol, porque \u00e9 alienado e nem se lembra de por qual raz\u00e3o esteve nas ruas em 2013. Isso \u00e9 preciso ser negado, porque \u00e9 o que eles v\u00e3o dizer e far\u00e3o as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es acreditar. Mas n\u00e3o, h\u00e1 muita repress\u00e3o e criminaliza\u00e7\u00e3o, e assassinatos, e persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, e terrorismo de Estado, todos os dias. A pr\u00f3pria manuten\u00e7\u00e3o da aliena\u00e7\u00e3o apenas \u00e9 poss\u00edvel mediante da destrui\u00e7\u00e3o da vida de muitos. Este \u00e9 um sistema fundado na viol\u00eancia continuada, mas isso significa que a guerra n\u00e3o est\u00e1 ganha e que precisamos nos defender, por todos os meios poss\u00edveis. A guerra n\u00e3o est\u00e1 ganha, apenas por isso que ela precisa ser mantida continuadamente. Precisamos lutar, por n\u00f3s, pela vida, pela humanidade que ainda nos resta.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TEXTO APRESENTADO PELA PROFESSORA CAMILA JOURDAN 284\\2015 IFCS NO SEMIN\u00c1RIO NEOLIBERALISMO E VIOL\u00caNCIA DE ESTADO: Experi\u00eancias e lutas M\u00e9xico-Brasil Na luta do bem contra o mal, \u00e9 sempre o povo que morre Eduardo Galeano Entender a viol\u00eancia de Estado significa entender que n\u00f3s vivemos em uma guerra. 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